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Denise Britto - Publicado em 21-07-2026 09:30
Livro sobre IA é destaque em congresso de Ciência Política
Imagem: Reprodução/UTDT.edu
Imagem: Reprodução/UTDT.edu
A coletânea "Estudos Sociopolíticos da Inteligência Artificial", organizada pelos pesquisadores Sylvia Iasulaitis, professora do Departamento de Ciências Sociais (DCSo) da UFSCar, e Sérgio Amadeu da Silveira, do Centro de Engenharia, Modelagem e Ciências Sociais Aplicadas (CECS) da Universidade Federal do ABC, é um dos destaques do principal fórum da ciência política da América Latina, o XIII Congresso Latino-Americano de Ciência Política (ALACIP), que acontece entre os dias 21 e 24 de julho em Buenos Aires. 

Criado há mais de 20 anos, o evento terá como tema "Quatro décadas de democracia na América Latina: entre o fortalecimento e a erosão em um mundo incerto". A temática reverbera nas pesquisas e contribuições tecidas pelos pesquisadores brasileiros: o que acontece com a democracia quando algoritmos passam a mediar eleições, segurança pública, trabalho e a própria produção do conhecimento?

Reconhecimento internacional e soberania em disputa
A seleção do livro para o ALACIP 2026 sinaliza o reconhecimento internacional de uma agenda de pesquisa construída a partir do Sul Global. Iasulaitis também adianta o teor da apresentação que realizará na Argentina: em vez de tratar a inteligência artificial (IA) como uma ferramenta técnica, a pesquisadora a define como um "fenômeno social, sendo, ela própria, um ator social não humano", que reorganiza relações de poder, redistribui recursos e cria "vencedores" e "perdedores". 

A apresentação em Buenos Aires deve ampliar o diálogo com pesquisadores de toda a América Latina, região que compartilha com o Brasil a posição periférica na economia de dados e os dilemas de regular tecnologias desenvolvidas em outros contextos. O congresso, que desde 2017 vem deslocando o foco da consolidação democrática para os riscos de erosão das democracias da região, encontra na obra brasileira um mapa das novas arenas em que essa disputa se trava. 

Uma delas é a soberania. A coletânea caracteriza o momento atual como um processo de "acumulação primitiva de dados" nos quadros do colonialismo digital: com plataformas e data centers controlados pelas Big Techs, a "dataficação" gera uma nova divisão internacional do trabalho, na qual países como os latino-americanos fornecem dados e consomem serviços, enquanto infraestrutura e lucros se concentram nos países tecnologicamente ricos.

Os números citados na obra dão a escala da assimetria: em 2021, os investimentos privados em IA somaram US$ 52,88 bilhões nos Estados Unidos e US$ 17,21 bilhões na China, segundo levantamento da Fundação Mozilla. Nenhum país da América Latina figura entre os líderes. Em uma das maiores concentrações de poder na história recente, em 2022, apenas cinco empresas (Amazon, Microsoft, Alibaba, Google e Huawei) controlam cerca de 81% do mercado mundial de infraestrutura de computação em nuvem, a base física sobre a qual roda a IA, de acordo com a consultoria Gartner. 

Quando informações cruciais sobre eleições, economia e serviços públicos rodam em infraestruturas privadas estrangeiras, os pesquisadores apontam que a capacidade de autodeterminação de uma democracia fica em questão.

Outro campo em debate é a integridade das eleições. O capítulo assinado por Iasulaitis e Isabella Vicari, doutoranda em Ciência Política na UFSCar, aborda a urna eletrônica e distingue a controvérsia tecnocientífica (legítima e travada entre especialistas) da controvérsia política (alimentada por desinformação). As pesquisas também registram a entrada da própria IA no processo eleitoral: um kit robótico já é capaz de atuar no teste de integridade das urnas eletrônicas. A tecnologia foi criada em parceria entre o Centro de Informática (CIn) da UFPE, o Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco (TRE-PE) e a Softex.

Ainda sobre integridade, o próprio conhecimento científico entra nessa questão. A coletânea identifica a "plataformização da ciência": pesquisadores e projetos cada vez mais vinculados às plataformas e adequados às condições infraestruturais, econômicas e ideológicas geridas por essas empresas. Pesquisas e iniciativas que deveriam analisar e fiscalizar as Big Techs acabam, dessa forma, dependendo delas.

Perguntas inéditas para um campo científico em formação
Em meio à análise desses fenômenos atuais e, em sua grande maioria, em pleno movimento, os pesquisadores mantêm uma cautela metodológica, explicitando que se trata de um campo em formação. Como sintetiza Iasulaitis, a IA implica alterações significativas na vida social, mas não propicia novas respostas a velhas perguntas, e sim a emergência de novas.

A coletânea propõe a consolidação de um campo emergente de pesquisa, batizado de Estudos Sociopolíticos da Inteligência Artificial, que também dá nome à obra. A obra completa está disponível para download gratuito no site do Interfaces (www.interfaces.ufscar.br), o Núcleo de Estudos Sociopolíticos dos Algoritmos e da Inteligência Artificial, liderado por Sylvia Iasulaitis.

Texto produzido pela jornalista Laís Cerqueira Fernandes, da assessoria de imprensa do grupo Interfaces. Mais informações podem ser solicitadas pelo e-mail interfaces@ufscar.br.